NOVOS MEDICAMENTOS
PARA O TRATAMENTO DO LÚPUS: OS AGENTES BIOLÓGICOS
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune crônica que pode atacar praticamente qualquer órgão ou tecido do corpo.
É autoimune porque os linfócitos, um tipo de glóbulo branco normalmente encarregados de defender o corpo de agentes externos (como bactérias, vírus, parasitas), perdem o controle e direcionam o ataque contra o próprio organismo. Por isso, a doença pode causar uma grande variedade de sintomas, e sua gravidade pode variar de leve para grave de acordo com os órgãos afetados, a rapidez com que é iniciado o tratamento e o perfil terapêutico de cada medicamento.
Embora até o momento não se conheça a cura para o LES, nos últimos anos houve avanços no seu tratamento e tanto a sobrevida quanto a qualidade de vida melhoraram substancialmente nas últimas décadas. No entanto, nem todas as pessoas respondem da mesma forma aos medicamentos disponíveis. Em alguns pacientes não é possível controlar todas as manifestações da doença nem evitar novos períodos de atividade. Por outro lado, como vários medicamentos convencionais têm efeitos adversos importantes, a pesquisa está focada no desenvolvimento de agentes terapêuticos mais eficazes e menos tóxicos, dirigidos a diferentes subtipos de LES.
Existe um grupo de novos medicamentos para o tratamento das doenças autoimunes, conhecidos como agentes biológicos ou modificadores da resposta biológica. Diferente do que acontece com os medicamentos convencionais, que são produzidos a partir de substâncias químicas, os agentes biológicos são produtos sintéticos desenvolvidos a partir de proteínas ou células vivas. Esses agentes tentam atacar aqueles componentes específicos do sistema imune que contribuem para o desenvolvimento da doença e preservam as funções imunológicas necessárias.
Os agentes biológicos são usados para tratar vários tipos de doenças autoimunes, incluindo a artrite reumatoide e outras formas de artrite, bem como o lúpus. Aqui, apresentaremos uma descrição do belimumabe, que até agora é o único agente biológico aprovado para o lúpus. Também falaremos sobre alguns dos múltiplos agentes biológicos não aprovados, mas que são usados ou estão em fase de estudo para o lúpus.
BELIMUMABE (BENLYSTA®)
Em 2011, foi aprovado nos Estados Unidos (posteriormente em muitos outros países) o primeiro agente biológico desenvolvido especificamente para o tratamento do LES. Esse agente, chamado de belimumabe, serve para reduzir a hiperatividade de um tipo de linfócito conhecido como linfócitos B. Os linfócitos B das pessoas com LES produzem autoanticorpos, uma das alterações características da doença.
O belimumabe é indicado para pessoas adultas com LES ativo que apresentem autoanticorpos positivos e estão recebendo medicamentos convencionais. O belimumabe demonstrou ser eficaz para o controle das manifestações do lúpus da pele e das articulações, reduzindo o risco de novas atividades de doença e diminuindo as doses de corticoides. Como o belimumabe não foi estudado em pessoas com lúpus grave com acometimento dos rins ou do sistema nervoso central, para os quais é usada a ciclofosfamida endovenosa ou outros agentes biológicos como o rituximabe, o belimumabe não é recomendado em combinação com esses tratamentos para pessoas com lúpus grave.
O belimumabe é aplicado por via endovenosa ou subcutânea. Seus efeitos adversos são variados e, em geral, leves, incluindo entre os mais frequentes os seguintes: náuseas, diarreia, febre, inflamação ou infecção de garganta e brônquios, dificuldade para dormir (insônia), dores no corpo, depressão, dores de cabeça. Os efeitos adversos mais graves são as infecções.
O belimumabe não foi avaliado em mulheres grávidas, mulheres amamentando, crianças, nem adultos maiores de 65 anos. Por isso, é desconhecida tanto a sua integridade quanto a sua eficácia nesses grupos de pacientes.
RITUXIMABE (RITUXAN®)
O rituximabe é um agente biológico que ataca seletivamente os linfócitos B, envolvidos na autoimunidade do LES. Embora não tenha sido desenvolvido especificamente para tratar pacientes com LES, demonstrou bons resultados em combinação com outros medicamentos em pessoas com lúpus grave.
Encontra-se em andamento ensaio clínico para avaliar estuda se o rituximabe e o micofenolato mofetil (CellCept®) podem ser administrados em conjunto sem corticoides para a nefrite lúpica.
ABATACEPTE (ORENCIA®)
É um agente que interfere nos sinais enviados entre os linfócitos B e outro tipo de células imunes, conhecidas como linfócitos T, que normalmente são ativados quando existem ameaças externas como infecções. No LES e em outras doenças autoimunes, esses sinais são ativados sem que exista uma ameaça externa real, o que produz uma hiperatividade das células e o ataque contra o próprio corpo. Embora tenha sido desenvolvido inicialmente para tratar a artrite reumatoide (AR) e não esteja aprovado para o tratamento do LES, o abatacepte foi utilizado em casos de nefrite lúpica que não responderam a medicamentos convencionais ou outros agentes biológicos.
TACROLIMO (PROGRAF®)
Esse agente interfere nas funções de linfócitos T e foi aprovado para pacientes com transplantes de órgãos para evitar a rejeição desses órgãos. Em vários estudos chineses é sugerido que pode ser um tratamento útil para o lúpus, especialmente para a nefrite lúpica. No entanto, ainda não existem estudos que demonstrem a sua superioridade sobre o micofenolato mofetil, a droga mais frequentemente usada na atualidade para a nefrite lúpica.
PONTOS RELEVANTES
Os agentes biológicos tentam atacar componentes específicos do sistema imune que contribuem para a resposta imune e preservam as funções imunológicas necessárias.
Como os agentes biológicos podem interferir com a resposta às vacinas, seu médico fornecerá orientações sobre a vacinação indicada nas pessoas com lúpus que vão receber esses agentes. Em geral, é recomendado que as vacinas com vírus morto sejam aplicadas pelo menos 30 dias antes de iniciar o tratamento com um agente biológico. As vacinas com vírus vivo não devem ser aplicadas nas pessoas com LES, uma vez que podem causar ou piorar infecções.
Como acontece com alguns outros medicamentos usados no tratamento do o lúpus, os agentes biológicos estão contraindicados em mulheres grávidas ou amamentando. Por isso, converse com seu médico sobre como evitar a gestação antes de começar a usar esses agentes ou qualquer outro medicamento.
Não se automedique e entre em contato com seu médico se tiver febre, dores intensas ou outros sintomas de alerta que indiquem que algo não esteja funcionando bem.
Embora o belimumabe seja o primeiro e único medicamento biológico aprovado para o LES, ele não é indicado para todos os pacientes com a doença, nem para o controle de casos graves do lúpus.
Outros medicamentos biológicos ainda não foram aprovados para o lúpus, mas, em determinadas situações, o médico pode indicar algum deles, como o controle de casos graves do lúpus.
DICAS DE CUIDADO E CONTROLE
O médico elaborará um plano de tratamento em função dos seus sintomas. Embora alguns agentes biológicos possam estar indicados em determinados tipos de lúpus, esses medicamentos não são necessários nem eficazes em todos os pacientes.
Não faça automedicação: é melhor conversar com seu médico sobre as opções terapêuticas e os resultados do seu plano de tratamento e não tomar decisões unilaterais que possam causar danos.
Verifique com seu médico o calendário de vacinação antes de iniciar o tratamento e depois controle o calendário regularmente.
PERGUNTAS FREQUENTES
OS MEDICAMENTOS BIOLÓGICOS SÃO PARA TODOS OS PACIENTES COM LÚPUS?
Não, os medicamentos biológicos não são para todos os pacientes com lúpus. Seu médico indicará a possibilidade ou não de usar um deles de acordo com seus sintomas da doença.
COMO É ADMINISTRADO O BELIMUMABE?
É administrado como infusão endovenosa (um soro na veia, com uma duração de aproximadamente uma hora) ou por via subcutânea (pequena injeção que é aplicada debaixo da pele pelo mesmo paciente, quando aprende a fazê-lo).
QUE CUIDADOS DEVO TER ANTES DE RECEBER O BELIMUMABE OU ALGUM OUTRO AGENTE BIOLÓGICO?
Você não deve ter infecções. Se você tiver febre ou algum sintoma que sugira infecção, consulte seu médico antes de realizar a infusão.