LÚPUS E APARELHO OSTEOARTICULAR
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) pode afetar as articulações, ligamentos, tendões e ossos.
A seguir explicaremos os diferentes sintomas, tratamentos, dicas e respostas para as perguntas mais frequentes sobre o assunto. Com essas informações, você poderá enfrentar da melhor maneira possível a doença e trabalhar com seu médico no tratamento mais adequado, de acordo com seus sintomas.
ARTRALGIAS
As artralgias (dores nas articulações) são comuns em pessoas com lúpus. As artralgias podem surgir junto a outro mal-estar, nas fases iniciais do LES ou como parte dos surtos da doença.
As artralgias são sintomas comuns a outras doenças, como a fibromialgia, que podem imitar o lúpus ou aparecer junto com o lúpus.
ARTRITE
Os pacientes com LES frequentemente têm episódios de inflamação de uma ou várias articulações, ou artrite, como parte dos surtos da doença. Quando há artrite, além da dor (artralgia) há inchaço ou aumento do volume das articulações afetadas, aumento de temperatura (sentir as articulações quentes) e rigidez ou dificuldade para mover articulações. Em algumas ocasiões também há rubor ou vermelhidão.
As deformações articulares permanentes não são comuns no lúpus. Em 5 de cada 100 pessoas com lúpus acontecem deformidades articulares que podem voltar ao seu estado anterior quando tentamos voltar ao seu estado natural. Isto é, são deformidades redutíveis, não fixas.
Essas deformidades acontecem porque o lúpus pode afetar os ligamentos e os tendões responsáveis pela estabilização dos ossos de cada articulação. Tais deformidades são conhecidas como “Artropatia de Jaccoud”.
“A artrite do LES é habitualmente menos grave que a artrite de outras doenças como a artrite da artrite reumatoide, uma vez que geralmente não causa dano no osso ou na cartilagem da articulação. Desta forma, habitualmente não causa destruição (erosão) nas articulações. Por isso, geralmente o lúpus não provoca deformidades fixas ou progressivas.”
Em todo paciente que apresenta lúpus e erosões articulares, é necessário descartar a artrite reumatoide, uma doença que pode causar destruição das articulações se não for tratada adequadamente. Diante da suspeita de artrite reumatoide, o médico pode solicitar ultrassonografia articular, radiografia de mãos e pés, bem como exames de sangue.
Outra condição que pode ser associada com a artrite em pessoas com lúpus é a Síndrome de Sjögren, a qual se caracteriza por apresentar olho e boca secos pela inflamação das glândulas que produzem as lágrimas e a saliva. Para descartar a Síndrome de Sjögren, além de exames de sangue, podem ser realizados testes para avaliação da produção de lágrima e saliva.
TRATAMENTO DE ARTRALGIA E ARTRITE
Para a artralgia podem ser indicados medicamentos analgésicos e também anti-inflamatórios não esteroides (AINES), mas por pouco tempo. É importante saber que, em muitas ocasiões, os sintomas são parte de um surto de atividade do lúpus que pode comprometer outros órgãos. O objetivo do tratamento sempre será controlar todas as manifestações da atividade, especialmente aquelas mais graves e que e podem comprometer a função de um órgão vital ou a vida do paciente.
Os medicamentos usados para outras manifestações da atividade podem servir para controlar a artrite. Se a artrite for a condição mais importante do surto ou a única manifestação dele, além dos AINES, podem ser usados corticoides. O médico ajustará as doses dos corticoides de acordo com a necessidade de cada paciente, mas, em geral, para controlar a artrite são suficientes doses baixas e por períodos curtos.
Se não for possível controlar a artrite com doses baixas de corticoides, podem ser adicionados fármacos chamados de imunomoduladores ou imunossupressores, como a hidroxicloroquina (que tem muitos outros efeitos benéficos) e o metotrexato, entre outros.
Outros fármacos usados são os biológicos, como o belimumabe. O medicamento escolhido pelo especialista deve ocorrer de forma individualizada.
A reabilitação e a terapia ocupacional são tratamentos que devem ser realizados simultaneamente com os medicamentos para um controle integral desses sintomas do lúpus.
NECROSE ÓSSEA AVASCULAR
A necrose avascular é uma complicação causada pela morte das células do osso, geralmente do quadril ou do joelho. Acontece pela ausência de oxigênio, uma vez que o sangue não chega a algumas partes do osso e essas partes colapsam. A necrose óssea causa dor quando o paciente tenta mover as articulações, por exemplo, ao caminhar ou subir escadas.
Embora uma das causas mais frequentes da necrose avascular em pessoas com lúpus seja o uso prolongado de corticoides em altas doses, às vezes, o próprio lúpus pode causar necrose óssea pelo processo inflamatório das artérias que irrigam (alimentam) os ossos. O diagnóstico precoce, através de exames como a ressonância nuclear magnética, é importante para controlar essa complicação antes que cause dano articular grave, como colapso da articulação. Quanto mais cedo for realizado o diagnóstico, maiores serão as probabilidades de proteger a articulação sem necessidade de recorrer a próteses.
MIOSITE
Trata-se da inflamação dos músculos (tecidos que geram a força para mover as articulações). Em pessoas com lúpus, a miosite é menos comum que a artrite, mas também pode ocorrer como parte da atividade da doença. As pessoas com miosite têm fraqueza e dor nos músculos dos braços, pescoço e pernas.
A miosite também pode aparecer em uma doença “prima” do lúpus, conhecida como doença mista do tecido conjuntivo. Nesta doença ocorre uma sobreposição entre o lúpus e doenças com miosite.
A fraqueza muscular causada pela miosite deve ser diferenciada daquela causada pelo uso prolongado de corticoides, a qual não causa inflamação, mas atrofia muscular, um efeito secundário dos corticoides.
Os sintomas da miosite devem alertar para possível atividade da doença. Conforme cada caso, o médico pode solicitar exames de laboratório para determinar se há dano muscular e se é devido a atividade do lúpus. Às vezes, é necessário realizar outros exames como eletromiografia, ressonância nuclear magnética ou biópsia de músculo para confirmar o diagnóstico de miosite. Em casos de miosite leve, o que ocorre mais frequentemente no lúpus, o médico indicará medicamentos semelhantes aos utilizados para tratar a artrite.
OSTEOPOROSE
Os pacientes com lúpus, muitas vezes necessitam ser tratados com doses altas e prolongadas de corticoides, o que pode causar perda da quantidade e qualidade dos ossos, bem como levar a osteopenia (redução da massa óssea sem risco de fratura) e a osteoporose (redução da massa óssea com risco de fratura). A suplementação de cálcio e vitamina D são importantes para a prevenção da osteoporose. Também é necessário ter hábitos de vida saudáveis, exposição solar com proteção adequada (fator de proteção solar) e fazer exercícios físicos para fortalecer os ossos da coluna vertebral e o fêmur, que são os sítios mais frequentemente acometidos pela osteoporose. Em alguns casos, o médico indicará medicamentos como os bifosfonatos, que ajudam a diminuir a perda óssea.
PONTOS RELEVANTES
O lúpus pode afetar seus ossos e articulações. A artralgia e a artrite estão entre as manifestações mais frequentes do lúpus e podem aparecer no início ou ao longo da doença, como parte de um “surto", ou ser a única manifestação de atividade de doença no momento.
A artrite no lúpus pode ser decorrente da própria doença ou de outras causas. É necessário identificar essas causas, como a artrite reumatoide e a síndrome de Sjögren, as quais podem acontecer paralelamente ao lúpus.
A artropatia de Jaccoud é um tipo de acometimento osteoarticular do lúpus (e de outras doenças) que tem características próprias que a diferenciam de outros tipos de artrite.
Em geral, a artrite do lúpus é mais leve do que a artrite reumatoide e pode se apresentar associada a outros sintomas em períodos de atividade. Atualmente existem vários tratamentos disponíveis para controlar a artrite no lúpus.
A necrose avascular (o osso desvitalizado ou morto devido à falta de oxigênio por má irrigação sanguínea) e a osteoporose (a perda de quantidade e qualidade da massa óssea, com maior risco de fratura) são condições podem estar presentes nos pacientes com lúpus. Podem ser prevenidas e, portanto, devem ser monitoradas constantemente.
DICAS DE TRATAMENTO E CONTROLE
1. Se você foi diagnosticado(a) com lúpus e tem artralgia ou artrite persistente ou recidivante, visite o médico pois pode se tratar de de atividade articular da doença ou mesmo fazer parte de um quadro de atividade mais grave.
2. Não use corticoides nem aumente a dose por conta própria se sentir artralgia ou artrite, ou artrite ou dores musculares. Também não use anti-inflamatórios não esteroides por muito tempo. Embora os medicamentos amelhorem os seus sintomas, essa conduta pode afetar a sua saúde, se não for controlada pelo seu médico.
3. Existem medicamentos disponíveis e novos fármacos que podem ajudar a controlar adequadamente a artrite causada pelo lúpus, consulte essas opções com seu médico.
4. Independentemente da sua idade ou gênero, como paciente de lúpus, você tem mais risco de apresentar osteoporose e necrose avascular do que os pacientes que não têm essa doença; ambas as condições podem ser evitadas ou detectadas precocemente para receber um tratamento adequado. Obtenha mais informações e consulte sobre os métodos de detecção precoce dessas condições.
5. Se você tiver diagnóstico de lúpus e dores articulares que pioram com o esforço físico e essas dores afetam grandes articulações como quadris ou ombros, é necessário descartar, entre outras alterações, uma osteonecrose. Consulte seu médico.
PERGUNTAS FREQUENTES
TENHO LÚPUS E ARTRITE, POSSO MELHORAR OU VOU FICAR INCAPACITADO(A)?
Geralmente, a artrite do lúpus é mais leve do que outras doenças inflamatórias articulares. A artrite do lúpus pode ser controlada com várias opções de medicamentos prescritos pelo especialista, de acordo com cada caso. Com controles adequados e o descarte de outras condições que imitam o lúpus, a maioria dos pacientes não deveria ficar incapacitado.
TENHO LÚPUS E TOMO CORTICOIDES. QUANDO DEVO REALIZAR A PRIMEIRA DENSITOMETRIA ÓSSEA?
O risco de osteoporose em pacientes com lúpus não está apenas relacionado com a menopausa ou ser mulher. Existem outros fatores de risco nos lúpicos como o uso de corticoides, ter insuficiência renal causada pela doença ou ter pouca exposição ao sol, que consequentemente leva a níveis mais baixos de vitamina D. Em todos os pacientes com lúpus que tomam corticoides por muito tempo, é necessário controlar essa condição através de uma densitometria óssea, um exame simples que determina a densidade dos ossos. Nas mulheres com lúpus e com as condições mencionadas, é aconselhável não esperar até a menopausa para realizar a primeira densitometria óssea. Esse exame detecta de maneira precoce a osteoporose. Seu médico realizará o exame e acompanhará seu caso.
TENHO DOR NOS OSSOS E MÚSCULOS, TAMBÉM SINTO MUITO CANSAÇO E DESÂNIMO, ISSO É PARTE DO LÚPUS QUE TENHO? SEMPRE VOU TER ESSES SINTOMAS E DEVO “ME ACOSTUMAR”?
Ter sintomas gerais como dores articulares ou nos ossos, fadiga ou cansaço, dores musculares ou até febre podem ser parte da atividade do; no entanto, sempre devem ser descartadas outras condições. Entre as condições a serem avaliadas, destacamos a fibromialgia e a depressão. A fibromialgia é uma condição que pode acontecer paralelamente ao lúpus e que gera uma grande dor nos ossos, articulações e músculos de uma forma generalizada, está associada à fadiga e a alterações do sono, e sempre deve ser descartada. Por se tratar de uma doença crônica com impacto nos hábitos de vida, os pacientes com lúpus também podem ter depressão.
Sempre que um paciente apresentar dores generalizadas e fadiga, depois de descartar outras condições, o médico deverá investigar a possibilidade de depressão associada. Não é normal que o lúpus cause esse tipo de sintoma nem que você deva se acostumar a essa condição. Consulte seu médico se tiver esses sintomas, especialmente se foi indicado que o lúpus está controlado.